Em uma região onde leite, suínos, aves e grãos fazem parte da paisagem rural, uma propriedade de Princesa decidiu seguir por um caminho bem diferente. Na Linha Marmeleiro, Mauro Lunkes e Angélica Knob apostaram na criação de rã-touro e transformaram uma atividade praticamente desconhecida no Extremo Oeste catarinense em negócio, aprendizado e possibilidade de geração de renda.
O AquaRã nasceu de uma ideia que acompanhava o casal havia anos. Para tirá-la do papel, foi preciso estudar uma cadeia produtiva pouco presente na região, adaptar a propriedade e aprender, na prática, como produzir em escala. A disponibilidade de água foi determinante para a escolha do local e a implantação exigiu estrutura específica para cada etapa da criação.



O resultado chama atenção: o ranário chegou a reunir cerca de 100 mil rãs distribuídas em 108 baias. A produção funciona em ciclo completo, passando pela reprodução, desenvolvimento dos girinos e engorda dos animais. No primeiro ciclo, aproximadamente 330 mil girinos foram adquiridos para dar início à atividade.
Mais do que o tamanho, é o sistema de produção que revela os desafios de introduzir uma atividade exótica em uma região sem tradição na ranicultura. Temperatura, qualidade da água, alimentação, sanidade e desenvolvimento dos animais precisam ser acompanhados constantemente. No inverno catarinense surgiu uma dificuldade adicional: a rã reduz o consumo de alimento e o crescimento com as temperaturas mais baixas.
A resposta veio com adaptação. O casal investiu em alternativas de aquecimento e realizou testes no manejo e na alimentação para encontrar condições mais eficientes de produção. O conhecimento foi sendo construído dentro da própria propriedade, a partir da observação dos animais, dos resultados obtidos e dos ajustes necessários em cada etapa.

Da experiência ao mercado
A criação não ficou restrita aos testes. Os primeiros animais já foram destinados à comercialização para abate, em Chapecó, levando ao mercado uma proteína ainda pouco presente na mesa dos brasileiros e de maior valor agregado. Cerca de mil animais chegaram a ser comercializados nessa primeira fase.
O projeto também foi pensado para crescer. A estrutura inicial pode ganhar novas unidades e os produtores estudam ampliar a atividade à medida que consolidam o sistema e o mercado. O objetivo vai além da produção própria: a experiência acumulada já despertou interesse de outras pessoas que procuram o casal para conhecer a ranicultura e entender como funciona a criação.
É justamente aí que uma iniciativa individual começa a revelar potencial coletivo. Entre os planos está a possibilidade de trabalhar futuramente em parceria com pequenos produtores de Princesa e municípios próximos, compartilhando conhecimento, oferecendo suporte para implantação e criando condições para que outras propriedades possam ingressar na atividade.



Para uma pequena propriedade rural, diversificar pode significar reduzir dependências e encontrar novas formas de permanecer economicamente ativa. No caso do AquaRã, isso aconteceu por meio de uma produção que praticamente não fazia parte da realidade regional e que exigiu dos produtores algo além do investimento financeiro: estudo, experimentação e capacidade de adaptar conhecimento às condições locais.
A inovação no campo nem sempre chega na forma de uma máquina de última geração ou de uma tecnologia visível. Em Princesa, ela está também na decisão de produzir o que quase ninguém produz, desenvolver soluções para os problemas encontrados e transformar conhecimento em uma nova possibilidade de negócio.


Entre milhares de rãs, baias, água, controle de temperatura e experiências acumuladas a cada ciclo, Mauro e Angélica estão construindo mais do que um ranário. Estão testando, no interior de um pequeno município catarinense, a possibilidade de abrir espaço para uma nova atividade produtiva — e mostrar que diversificar também pode ser uma forma de inovar no agro.









Fonte – Kelly Figueiró – Impacto Comunicação
